Confiança… uma doença mortal…

Há uma doença mortal espionando o seu cão, horrenda e furtiva, apenas esperando sua chance para roubar seu amigo amado. Não é uma doença nova, ou uma na qual há inoculações. A doença é chamada “Confiança.”

Você já sabia antes mesmo de levar o seu filhote para a sua casa, que não podia confiar. O criador que lhe proporcionou este maravilhoso filhote já o advertiu, ficou martelando isto em sua cabeça. Filhotes roubam coisas do balcão, destroem coisas caras, perseguem gatos, demora muito para serem treinados, e nunca devem ser deixados sem trela!!

Quando finalmente chegou o grande dia, ainda ouvindo o conselho do criador, você escoltou seu filhote para a nova casa dele, corretamente com guia, coleira e identificação, segurando firma a trela em suas mãos.

A casa já estava à prova de filhote. Tudo de valor foi guardado no quarto, lixo colocado acima do refrigerador, gatos separados e um portão no meio da sala de estar para manter pelo menos uma parte da casa livre de poças. Todas as janelas e portas foram trancadas corretamente, e placas colocadas em pontos todos os pontos estratégicos lembrando a todos para “Fechar a porta!”

Logo se torna um hábito verificar se a porta foi trancada segundos depois de ser aberta. “Não deixe o cachorro sair” é a sua segunda frase verbalizada. (A primeira é “Não!”) Você se preocupa e exagera constantemente, temendo que o seu cãozinho saia e um desastre certamente aconteceria. Seus amigos comentam sobre quem você ama mais, sua família ou o cachorro. Você sabe que se relaxar nessa vigília por apenas um momento poderia perdê-lo para sempre.

E assim as semanas e meses passam, com seu filhote se tornando mais civilizado a cada dia, e aí são plantadas as sementes de confiança. Parece que a cada novo dia aparece menos destruição, menos desobediência. Mal você percebe e o seu filhote desengonçado e lambão se transformou em um amigo elegante, digno.

Agora que ele é um companheiro mais confiável, tranquilo, você o leva a mais lugares. Ele não mastiga mais o volante quando é deixado no carro. E não dá a mínima se aquele bolo ainda não estiver no balcão nesta manhã. E, oh sim, não era que o gato estava dormindo com ele de forma tão aconchegante em seu travesseiro ontem à noite?

Neste momento você está começando a ser infectado, a doença está estendo as suas raízes fundo em sua mente.

E então um de seus amigos sugere aulas de obediência e, depois de um tempo, você o deixou correr solto do carro até a sua casa quando vocês chegam. Por que não? Ele sempre corre diretamente à porta, dançando um frenesi de alegria e esperando para entrar pela porta. E lembre-se que ele vem toda vez que é chamado. Você sabe que ele é a exceção à regra. (E às vezes, tarde da noite, você o deixa dar uma saidinha pela porta da frente para fazer suas necessidades e então voltar para dentro.)

Anos passam – é até difícil de se lembrar que você já se preocupou tanto quando ele era um filhotinho. Ele nunca pensaria em correr para fora enquanto você deixa a porta aberta para pegar os pacotes do carro. E nem pensar que ele pularia da janela do carro enquanto você corre até a loja de conveniência. E quando você o leva para esses maravilhosos passeios longos ao amanhecer, é só dar um assobio para ter ele vindo correndo em sua direção numa arrancada quando o passeio está muito perto da rodovia. (Ele ainda pega o lixo, mas ninguém é perfeito!)

Este é o tempo em que a doença esperou tão pacientemente. Às vezes só tem que esperar um ano ou dois, mas frequentemente leva mais tempo.

Ele espia o cachorro do vizinho atravessando a rua, e de repente esquece tudo o que ele já sabia sobre não passar pelas frestas das portas, não pular pelas janelas do carro ou voltar quando é chamado. Talvez fosse apenas um papel flutuando na brisa, ou mesmo só pela alegria de correr…

Detido em um momento. Silenciado para sempre – Seu coração se quebra ao ver o corpo bonito e imóvel dele.

A doença é a confiança. O resultado final, atropelado por um carro.

 

Todas as manhãs meu cachorro saía para explorar os arredores sem guia. Todas as manhãs durante sete anos ele voltou quando foi chamado. Ele era perfeitamente obediente, perfeitamente confiável. Ele morreu quatorze horas depois que foi atingido pelo carro. Por favor não arrisque a vida de seu amigo e seu coração. Poupe a confiança para coisas que não importam.

Por favor leia este texto todos os anos no aniversário de seu cão, para que não nos esquecemos.

 

Por Sharon Mathers 

(Publicado em 1988 em “Canine Concepts and Community Animal Control Magazine”)

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